Gabriela Jorge

Friday, May 12, 2006

INTERFACE E VIRTUALIZAÇÃO

Os textos oferecidos pelo professor na disciplina de Jornalismo Online, nos fazem refletir sobre como os computadores e a virtualização de atividades antes feitas com papel e caneta mudaram nossa maneira de refletir e agir nos últimos anos. Sem que percebêssemos, fomos nos adaptando e nos tornando interessados cada dia mais pelas novas tecnologias e facilidades trazidas com o advento do computador e dos softwares. O autor Steven Johnson, no livro Cultura da Interface – Como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar, descreve a situação ocorrida com ele mesmo, quando seu hábito de escrever nos tradicionais blocos amarelos e transcrever o texto pronto para o editor de textos, aos poucos foi sendo substituído pela facilidade da criação direta no computador, utilizando dos recursos como a tecla “delete” e formatação de fonte. Mais do que mudar nossa forma de escrever, o computador mudou nossa maneira de pensar.
Mas todos os avanços da tecnologia da informática só são possíveis quando há o texto. De nada adiantam as facilidades de procura de arquivos, ou mesmo as infinitas barras de formatação sem as palavras. Notamos as grandes mudanças das interfaces gráficas, mas o texto em sua essência não mudou muito nos últimos anos. A tecnologia avançou muito, mas não fez ainda com que computadores leiam um livro e o compreendam.
É sobre a importância do texto, que o autor Pierre Lévy fala no livro O que é virtual¿

“Estamos ao mesmo tempo aqui e lá graças às técnicas de comunicação e de telepresença. Os equipamentos de visualização médicos tornam transparente nossa interioridade orgânica. (...)”
Pierre Lévy

Pierre Lévy finaliza sua explanação a respeito do hipertexto voltando aos primórdios da invenção da escrita. Segundo ele, a virtualização do texto não surge para aniquilá-lo em sua forma física, mas surge para faze-lo coincidir com a sua essência. “Como se saíssemos de uma certa pré-história e a aventura do texto começasse realmente”.
No texto O que é o virtual, mais do que discutir o texto e o hipertexto, Pierre Lévy nos relembra da época em que estamos vivendo, quando nossos sentidos são virtualizados: o telefone para a audição, a televisão para a visão, os sistemas de telemanipulações para o tato e a interação sensório-motora. Hoje, a parte interna de nosso corpo pode ser visto pelos médicos sem um corte sequer. Neste sentido, pode-se falar de hipercorpo, no momento em que os transplantes possibilitam a troca de órgãos entre pessoas e entre mortos e vivos, da mesma forma que enxertos, ou ainda, implantes e próteses completam nossas deficiências e acabam se misturando ao nosso corpo vivo.
Neste sentido, ao falarmos em virtualização do texto, deparamos com o tema trazido por Pierre Lévy: a leitura ou a atualização do texto. Segundo ele, ao interpretar, ao dar sentido ao texto, o leitor leva adiante as atualizações fornecidas pelo mesmo. Este é o fim da leitura, desdobrar o sentido inicial do texto. Lévy comenta que em certo momento, do texto propriamente dito, pouco irá nos restar pois já o “decupamos” e absorvemos.

“Escutar, olhar, ler equivale finalmente a construir-se.”
Pierre Lévy

É certo que ao lermos um texto, conectamos as informações ali contidas com a bagagem cultural pré-existente em nossa memória e esta é mais uma das funções do hipertexto.
O hipertexto informático, texto contemporâneo, assume cada vez mais as características de um diálogo. Neste caso, os critérios, segundo Pierre Lévy, também mudam: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais; brevidade, graças a possibilidade de apontar imediatamente as referências; eficiência, pois prestar serviço ao leitor (e em particular ajuda-lo a navegar) é o melhor meio de ser reconhecido sob o dilúvio informacional.
Falando da potencialização do texto, Pierre Lévy, também é incisivo quando diz que a digitalização e as novas formas de apresentação do texto só nos interessam porque dão acesso a outras maneiras de ler e compreender. O hipertexto, assim, é um texto potencial, pois permite a interação do usuário/leitor. No mesmo sentido, a hipercontextualização incita no leitor sua reserva cultural e instrumentos de composição, os quais possibilitam a projeção de outros textos. “O texto é transformado em problemática textual.” E desta forma, sempre existiram conexões entre a leitura individual e a navegação pelas redes digitais, onde um grande número de pessoas faz seus acréscimos aos textos por nós produzidos através de ligações hipertextuais. O navegador pode se tornar autor participando da estruturação do hipertexto.

“Assim a escrita e a leitura trocam de papéis. Todo aquele que participa da estruturação do hipertexto, do traçado pontilhado das possíveis dobras do sentido, já é um leitor. Simetricamente, que atualiza um percurso ou manifesta este ou aquele aspecto da reserva documental contribui para a redação, conclui momentaneamente uma escrita interminável. (...) A partir do hipertexto, toda leitura tornou-se um ato de escrita.”
Pierre Lévy

O texto agora deixa de ter um lugar específico, basta que ele exista apenas em um computador para, em seguida, fazer parte da rede mundial. A digitalização proporcionou que um mesmo texto esteja acessível em qualquer lugar do mundo e seja passível de alterações e contribuições a qualquer momento. As ligações e vínculos acabam sendo tantos, que a diferença do texto original para as milhares de cópias que acabam sendo criadas, se perde.
Como comentado no início deste texto, Pierre Lévy levanta um questionamento: a multiplicação das telas anuncia o fim do escrito¿ Não. A multiplicação dos textos e contribuições infinitas sempre necessitaram de um texto original. E os textos digitalizados nunca ocuparam o espaço do impresso clássico. É como se as mudanças no texto, agora realizassem seu verdadeiro fim.

“Enfim, como se saíssemos de uma certa pré-história e a aventura do texto começasse realmente. Como se acabássemos de inventar a escrita.”
Pierre Lévy

Pierre Lévy, nos faz refletir o texto de uma forma diferente. Pensar no hipertexto hoje ainda nos causa estranheza. Participar, contribuir com um texto, fazer papel de co-autor nos assusta tanto como participantes que interferem no trabalho dos outros, como autores que não permitem a participação em seu texto. Mas mais do que o texto, o pensamento também está mudando, assim como nos adaptamos a digitalização há alguns anos, conforme comenta Steven Johnson.

1 Comments:

  • At 5:51 PM, Blogger Ametista said…

    Muito interessante o texto.É um breve relato bem fiel ao livro de Lévy, O que é o Virtual.Parabéns!

     

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